Existem tempos, separados pelo séculos, em que a miséria coletiva ferve, e em que o desejo frutífero de se libertar da rotina deprimente em que gastam todas as suas vidas, emerge. Nesses tempos, cada polpa e cada semente sai de sua infindável e inevitável inércia vital, junta-se a outros frutos passados, para impor uma selva de frutos frescos sobre a qual aprenderam nas escolas. Uma selva que não existe, nunca existiu, e não existirá. A natureza mantém o fruto fresco por certo tempo, mas seu apodrecimento é inevitável. Nem seu desejo mais forte é capaz de suprir a oxidação de sua vida.
Mas aí temos os animais, que além de devorarem uns aos outros, tomam para si os poucos frescores selvagens que teriam alguma serventia na cadeia alimentar. E o que haverá de ser dos frutos podres, então? O que tiver sorte, despencará de sua árvore, jazerá na terra por semanas, até que por ela será engolida. Caso contrário, será empossado por aqueles do reino animal que aceitam tudo o que fora rejeitado outrora por seus colegas: Os urubus. Mas estes, como bons torturadores que são, não se contentarão com a simples ingestão, mas convencerão os frutos de que pode haver uma selva perfeita, aonde ele e todos os seus iguais viverão, no frescor natural eterno. E os frutos, desavisados, creem sem pensar mais de uma vez. Levantam-se. Unem-se. Derrubam tudo o que havia em sua frente, para no fim descobrir que fora tudo em vão, pois a própria mãe natureza sempre encarrega-se de apodrecê-los.
Os outros animais, pasmos, assistem a tudo. E chamam o levante frutífero de revolução.
