Mas Radan era diferente. Ninguém sabia aceitar uma derrota como ele, e aquele não era o momento para grandes reviravoltas. Àquela altura, faltava menos de uma semana para a data prevista do choque, e mesmo assim Radan não parecia se abalar: Ia trabalhar, almoçava, trabalhava mais, voltava para casa, e dormia, como sempre fez. Em seu expediente, estudava as rochas estelares como se nada fosse acontecer, como se há três meses não houvesse informado a seus superiores que um asteróide possivelmente entraria em rota de colisão com a Terra.
Em uma dessas tardes, decidiu parar de observar o movimento das estrelas, como tanto amava, e observar de perto a mão de Deus que em uma semana se colidiria com a Terra. Observando por algumas horas, passou a notar certas falhas no relatório que a NASA fizera: Alguns dados ali haviam sido colhidos muito prematuramente e não representavam o que Radan via com seus próprios olhos.
Passou três noites colhendo tais dados e corrigindo-os, e ao fazer isso percebeu que, de acordo com os novos dados que ele colhera, a ameaça poderia ser contida. De início, não soube o que fazer; andava de um lado para o outro pensando em como agir, sentindo o peso que acabara de cair sobre seus ombros. Um peso que ele não pediu, mas que a ele fora dado. Em suas mãos jaziam o passado, presente e futuro de milhões de espécies e de mais de 14 bilhões de anos de história.
Àquela altura, faltavam dois dias para o choque, e na mente de Radan as noites eram cada vez mais escuras e os dias menos brilhantes. Sua primeira idéia foi telefonar para Coulson, um de seus melhores amigos, e que agora trabalhava diretamente com o ministro da defesa. Quem antes era o homem que menos temia o fim, agora era o único cuja esperança ainda não morrera. Foram 8 toques até a resposta. Coulson atendeu, com uma voz rouca e chorosa, e de início ficou surpreso por ouvir uma voz que achara que jamais ouviria novamente. Foi só. O resto do discurso deprimiu Radan ainda mais, até o ponto em que ambos acharam que já haviam ouvido demais e desligaram.
Um atrás do outro, foi se lembrando de pessoas que poderiam lhe colocar em contato com autoridades responsáveis, e nisso perdeu mais um dia, ouvindo de todos a mesma resposta: Tudo acabou, vá aproveitar o pouco tempo que lhe resta.
Neste ponto, o relógio apocalíptico que a igreja local instalara já anunciava as 17 horas que faltavam para o juízo final. O desespero já começava a tomar conta da mente do cientista, que agora entrava em seu carro, em uma última tentativa desesperada de chegar a alguém que pudesse ajudá-lo a salvar a todos. Dirigiu por 4 horas até a capital, e chegando lá correu ao palácio do presidente. Empurrava os portões que trancavam o presidente do resto do mundo e gritava com seu dossiê em mãos, mas nem uma alma vinha lhe ouvir. Gritou por horas e horas até que um dos seguranças do local, cansado da gritaria habitual que se dera nos últimos dias, foi a Radan e deu-lhe com um pedaço de pau na cabeça, fazendo-o desmaiar.
Seus olhos abriram-se sabe-se lá quanto tempo depois, mas fora tempo suficiente para que a última das noites abraçasse o planeta inteiro, de uma vez só, como um predador abocanha as presas menores. Agora, no céu brilhavam pálidas as poucas estrelas que ainda não haviam sido encobertas pela última ameaça que a humanidade jamais enfrentaria, quase invisíveis quando observadas ao lado da luminosidade estranha que vinha da rocha colossal.
As ruas eram mais vazias do que nunca, com algumas pessoas, a maioria mendigos, choramingando pelos cantos. Por um segundo, Radan pensou ter visto uma das antigas cabines telefônicas azuis da polícia londrina com um casal se abraçando sob a soleira da porta entreaberta, mas seu olhar foi desviado por um estranho barulho de explosão vindo do oeste. Radan não sabia, mas aquele seria o última som produzido por outros humanos que ele jamais ouviria.
Pensando no futuro, Radan lembrou os erros do passado, e temeu o presente.
A luz que emitia o asteróide castigava as córneas pobres e cansadas, trazendo o último raio de luz que aqueles olhos jamais refletiriam.
E gritou; gritou por Deus, gritou por sua mãe, gritou por sua vida. Gritou pois a morte era fria e solitária, até que havia que gritado por tempo suficiente para que sua garganta não apenas o arranhasse, mas rasgasse tudo o que havia em sua volta.
E de repente, veio: A dor, o medo, o choro, o grito, tudo o que jamais houve ou haverá, todos a que Radan conhecera ou viria conhecer, todos os que ele jamais conheceria, tudo o que ele já tocara, e o que ele jamais viria a tocar comprimiram-se nas paredes de pressão que engolfaram o planeta minutos antes do choque que levantaria poeira maior do que qualquer que já fora vista. Iriam-se embora homens, e tudo o que era vivo ou que um dia já fora e que agora descansava pesadamente sob as rochas daquele pálido ponto azul, que agora caminharia como o pálido monte de poeira marrom.
Naqueles poucos segundos, as ruas esvairam-se perante seus olhos, e a lua que já não brilhava tanto desapareceu, dando lugar a uma noite sinistra e vazia, na qual sob seus pés jazia nada além do nada.
Sob as sombras que vinham de lugar algum, ergueu-se uma forma encapuzada coberta por um tecido preto que caía até seus pés: Podres, velhos, e mortos. Ao ver tanto, Radan caiu de joelhos, abriu os braços e aguardou, até que aquilo viesse buscá-lo.
E a Morte abraçou-o sedenta; e juntos caminharam por um túnel que jamais apresentara luz alguma em seu final.
FIM

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